Artigo de Opinião

Por Ana Massano, Human Resources Manager na GoWork


Quando pensamos em procurar emprego ou em fazer uma transição de carreira, o primeiro impulso é, quase sempre, atualizar o currículo.
Revisitamos as experiências anteriores, ajustamos as datas, destacamos os projetos mais relevantes e tentamos sintetizar o nosso percurso em uma ou duas páginas.

No mercado de trabalho atual, o currículo tradicional continua a ser o nosso “bilhete de identidade profissional”, o documento que nos “abre a porta”.
No entanto, assim que a entrevista começa (e nos momentos que a antecedem), ganha uma importância decisiva aquilo que não está escrito no currículo: o chamado “curriculum invisível”.

Enquanto especialistas em recrutamento e gestão de talento, acompanhamos diariamente candidatos que, apesar de apresentarem um CV irrepreensível, não conseguem avançar nos processos de seleção.
Por outro lado, vemos profissionais com percursos menos lineares a destacar-se e a conquistar excelentes oportunidades.

Por que motivo isto acontece?
A resposta reside precisamente nessa perceção que o recrutador constrói sobre o candidato a partir dos seus comportamentos, da sua postura, da inteligência emocional e dos valores que transmite ao longo de todo o processo.
São estes sinais e pontos de contacto, demonstrados antes, durante e após a conversa formal, que os recrutadores avaliam com o mesmo detalhe (ou até mais) do que as competências técnicas inscritas no papel.

 

Os pilares do "curriculum invisível"


Na prática, o processo de avaliação começa muito antes do momento em que o candidato se senta na sala de entrevista (seja ela presencial ou por videochamada). Existem diversos elementos que compõem este perfil invisível:

 

1. A pegada digital, a presença e a coerência no LinkedIn

Vivemos na era da pegada digital, onde o recrutamento já não acontece de forma isolada.
O processo de avaliação começa muitas vezes antes do primeiro contacto direto, através das redes.
O nosso perfil de LinkedIn deixou de ser uma mera rede social para passar a ser a extensão viva do currículo ou, em alguns casos, o próprio currículo.
O objetivo do recrutador aqui é encontrar consistência e concordância: a imagem que passamos no mundo digital deve estar em perfeita sintonia com o que escrevemos no CV e com aquilo que dizemos na entrevista. Além da clareza do título profissional e resumo, a postura digital (comentários, publicações e a forma como o candidato interage na rede) revela competências de comunicação, inteligência emocional e interesse pelo seu setor de atividade.

2. O teste da concordância e a transparência

O primeiro grande teste do processo de seleção é a concordância.
Se as respostas, os dados e os exemplos partilhados na entrevista não coincidirem com as informações apresentadas no currículo ou no LinkedIn, o recrutador pode perder a confiança no candidato de imediato.
A transparência e o alinhamento das informações são fundamentais para construir credibilidade desde a primeira interação.

3. A etiqueta na comunicação por e-mail

A forma como um candidato responde ao convite para uma entrevista ou envia a sua candidatura diz muito sobre a sua capacidade de trabalho e organização diária.
Detalhes que fazem a diferença:
  • Tom de voz e formalidade adequada: saber equilibrar a proximidade com o profissionalismo;
  • Cuidado na escrita: ausência de erros ortográficos, estruturação clara da mensagem e uso de uma assinatura profissional;
  • Tempo de resposta: responder em tempo útil demonstra interesse genuíno e compromisso com o processo.

4. A pontualidade e a gestão de imprevistos

A forma como o candidato se apresenta desde o primeiro momento transmite muita informação.
A pontualidade é um dos primeiros sinais práticos de respeito, organização e consideração pelo tempo alheio.
Chegar a horas, ou ligar-se à videochamada no minuto exato, é o padrão esperado. Contudo, os imprevistos acontecem. Nestes casos, o recrutador avalia a gestão da crise: avisar com antecedência, pedir desculpa e propor uma alternativa revela responsabilidade e maturidade profissional.

5. A preparação e iniciativa sobre a empresa

Há atitudes de preparação que começam a ser avaliadas antes da entrevista.
Demonstrar conhecimento sobre a organização vai muito além de saber qual é o negócio principal. Estudar a cultura da empresa, analisar o seu website, conhecer os seus produtos/serviços e analisar os seus projetos ou notícias recentes demonstra interesse, iniciativa e que o candidato fez o seu "TPC".
Além disso, saber formular perguntas pertinentes no final da conversa mostra que o profissional já se perspetiva a acrescentar valor ao projeto.

6. Linguagem corporal e soft skills no contacto direto

As competências comportamentais são difíceis de mensurar num papel, mas tornam-se evidentes na interatividade inicial e durante a conversa.
Na entrevista, certos comportamentos revelam quem somos:
  • O contacto visual e a empatia relacional;
  • A capacidade de ouvir sem interromper (escuta ativa);
  • A assertividade na comunicação e a capacidade de síntese;
  • A reação a perguntas desconfortáveis ou situações de pressão, que revelam a maneira como lidamos com adversidades, incerteza e flexibilidade mental no dia a dia de trabalho.


As competências humanas como fator de desempate decisivo


Num mercado de trabalho em constante transformação, o papel perdeu o monopólio da decisão. O CV tradicional valida a experiência prévia e o enquadramento técnico básico, mas está longe de prever o sucesso ou a integração real de um profissional numa nova equipa.

As competências técnicas (hard skills) atraem a atenção e podem ser ensinadas, aperfeiçoadas ou atualizadas com relativa rapidez.
Mas são as competências humanas (soft skills) que muitas vezes garantem a contratação. 

Na GoWork, observamos frequentemente que, perante dois candidatos com um perfil técnico muito semelhante, as competências humanas surgem como o critério de desempate decisivo. São a postura, o compromisso, a inteligência relacional e o alinhamento de valores que ditarão a escolha final.

Conseguir um emprego não se resume apenas às funções e às experiências que vamos adquirindo ao longo do tempo, é, também, uma questão de atitude e valores.
O "curriculum invisível" lembra-nos de que, no fim do dia, as empresas são feitas por pessoas e para pessoas.

Cuidar do percurso e da formação técnica é essencial, mas treinar a nossa postura, cuidar da comunicação em todos os pontos de contacto e manter a coerência são os verdadeiros fatores de diferenciação.

O currículo tradicional é a porta de entrada, mas é o nosso comportamento que muitas vezes nos garante o lugar.